Gustavo “Baiano”: De Bom Jesus da Lapa ao Cenário Global do eSports

0
GrupoSCosta-350x250px
Reprodução

Lembro-me como se fosse ontem da primeira vez que vi Gustavo em ação. Não foi já em sua época como streamer e influenciador digital, mas sim nas oitavas de final do Campeonato Brasileiro de League of Legends entre CNB e Pro Gaming, no que muitos lembram como “o dia que o Rakin fez o impossível”. No quinto jogo, Baiano abaixa a máscara e, por mais que no calor do momento tenhamos achado que era uma cena simples ou que ele estava captando energias, já que sua equipe faria uma virada histórica, não sabíamos o que estava por trás dos bastidores: a luta da saúde do próprio rapaz que nunca parou de lutar quando algo era relacionado ao seu sonho. Pensamento que hoje, é realidade.Os anos se passam, e o jovem nascido e criado no interior da Bahia, na cidade de Bom Jesus da Lapa, decide se tornar streamer, uma profissão comum para jogadores de esportes eletrônicos. Mas, como Alexandre “Gaules”, uma das maiores referências do cenário de eSports sempre faz questão de mostrar, a resiliência fala alto e mostra do que realmente somos capazes. Do jovem que fazia meme de si mesmo por comer pão na live, ao homem que faz uma média de quase 100.000 pessoas assistindo e se inspirando nele. Senhoras e senhores, este é um texto sobre Gustavo, apelidado carinhosamente de Baiano. Desde já agradecemos a agência N9NE pela possibilidade da entrevista.

📲 Clique aqui e receba noticias do Notícias da Lapa no seu WhatsApp e fique por dentor de tudo!

Impacto Comunitário e Cultural

Com o crescimento de seu canal, Baiano se tornou uma figura central na transformação da percepção e do consumo de eSports no Brasil. Seu trabalho não apenas atrai espectadores apaixonados pelo League of Legends, mas também (re)conecta antigos jogadores e desperta o interesse de novos fãs. O projeto “Ilha das Lendas”, que mescla entretenimento, humor, análise e competição, desempenha um papel crucial nessa dinâmica, proporcionando um conteúdo diversificado que ressoa com um público amplo.

“Recebemos muitos comentários de pessoas que não assistem mais League of Legends e voltaram a assistir por causa da Ilha das Lendas,” disse ele. “Tentamos sempre educar o público para separar o lado profissional de um jogador do lado pessoal. O lado pessoal não tem nada a ver, mas o lado profissional, aí sim, pode receber críticas construtivas.”

Baiano também destaca a importância de atrair pessoas de diferentes camadas de interesse, expandindo a comunidade além dos fãs mais dedicados do jogo. “O grande desafio é atrair cada vez mais pessoas dessas camadas mais afastadas, e estamos conseguindo fazer isso,” explicou.

Essa abordagem tem um efeito profundo, trazendo novos espectadores e engajando antigos jogadores que haviam se distanciado do LoL. “Alguns que jogam outros jogos e estavam afastados dos eSports começaram a assistir League of Legends conosco. Muitos acabam criando interesse em outros jogos da Riot, como Valorant ou outros,” afirmou.

Desafios e Relação com a Comunidade

Manter um canal de sucesso não é tarefa fácil, especialmente quando se é responsável por liderar projetos e ainda atuar como streamer. Baiano compartilhou alguns dos maiores desafios que enfrentou ao longo de sua carreira.

“Os maiores desafios de ser líder e streamer ao mesmo tempo, e como CEO de certos projetos, é manter a cabeça boa,” disse. “Você começa a ter muitos trabalhos burocráticos, além de precisar estar bem na live, criando um conteúdo de qualidade.”

Ele destaca que equilibrar as responsabilidades administrativas com a criação de conteúdo pode ser exaustivo. “Além de ser streamer, você também precisa ter uma cabeça muito boa para lidar com negócios, produção e outros assuntos,” explicou Baiano. “O maior desafio é manter esse equilíbrio e ainda conseguir ser streamer durante todo esse processo.”

A relação com a comunidade é outro aspecto crucial. Ele enfatiza a importância de compartilhar momentos com o público. “A streaming é sobre dividir momentos com o seu público,” disse. “Para os meus viewers, parece que sou um parente deles, entende? Como se eu fosse um irmão ou algo muito próximo, porque você começa a dividir ativamente vários acontecimentos da vida.”

Essa conexão é fortalecida ao longo do tempo, à medida que os espectadores se sentem mais próximos do streamer. “Tem gente que me acompanha há sete, oito anos. Então, imagine que as pessoas vão crescendo juntas de certa forma, passando por coisas da vida juntas e sempre tendo algo na stream que conecta com aquele momento. Elas vão evoluindo e amadurecendo juntas.”

Com amor, Cebolão!

Além de ser o desenvolvedor do projeto “Cebolão”, que durante suas edições já reuniu verba para apoios sociais, Baiano também valoriza a criação de campeonatos e eventos físicos para fortalecer ainda mais esses laços da comunidade com o League of Legends.

“Valorizo muito isso, então tento criar campeonatos e eventos para juntar essa galera, para todo mundo ter uma coisa física ali também, todo mundo junto da comunidade,” explicou.

Visão Sobre o ‘League of Legends’

De acordo com a consultoria de dados mundiais sobre jogos, Newzoo, o cenário de League of Legends no Brasil é forte em termos de número de jogadores e espectadores. Em 2023, o Brasil registrou aproximadamente 5 milhões de jogadores ativos mensais, com picos de 800 mil jogadores simultâneos durante eventos especiais.

Globalmente, utilizando dados da Riot Games (desenvolvedora do game), o ‘lolzinho’ (carinhosamente apelidado) continua sendo um dos jogos mais populares do mundo, com cerca de 115 milhões de jogadores ativos mensais e picos de até 8 milhões de jogadores simultâneos.

(Gustavo e Jian “Uzi” Zi-Hao durante transmissão do Worlds 2023. Imagem: Reprodução)

Gustavo fez uma avaliação do “ecossistema atual do League of Legends” no Brasil e globalmente, destacando os desafios e oportunidades. Segundo ele, o cenário brasileiro tem suas particularidades, onde mesmo sendo uma região com grande apoio da comunidade (afinal, brasileiro é apaixonado em qualquer esporte), enfrenta desafios únicos em questão competitiva por ser distante das regiões de alto nível, dificultando assim o desenvolvimento e aperfeiçoamento de jogadores e aspirantes.

“A comunidade brasileira segue forte, o conteúdo segue forte. Estamos meio que criando um novo ecossistema dentro do próprio Brasil,” explicou Baiano. “Apesar de ambos os cenários estarem crescendo, no Brasil, de certa forma, ocorre um descolamento a nível competitivo.”

Ele observa que o cenário brasileiro de LoL está evoluindo de maneira distinta do cenário global. “Estamos vendo meio que um descolamento do ecossistema geral, global, e do Brasil. Como não conseguimos competir internacionalmente de forma muito justa e equivalente com as outras regiões, principalmente as asiáticas, acabamos nos descolando dessa competição internacional,” disse.

Mesmo assim, Baiano acredita que o cenário brasileiro de LoL tem um potencial enorme de crescimento e de criação de conteúdo original e atraente. “Temos uma comunidade muito forte, muito unida, que ama o jogo e adora ter essas experiências em conjunto. Estamos juntos há 10 anos, crescendo juntos de certa forma. A comunidade brasileira segue forte, o conteúdo segue forte. Estamos meio que criando um novo ecossistema dentro do próprio Brasil.”

Processo de Escolha e Integração na ‘Ilha das Lendas’

A ‘Ilha das Lendas’ é um projeto ambicioso que se tornou um marco no cenário de LoL no Brasil. Perguntamos a Baiano sobre o processo de escolha e integração dos membros do grupo e como ele consegue manter o equilíbrio entre diferentes estilos e personalidades.

“Esse processo de criação do primeiro elenco já vinha na minha cabeça há muito tempo. Eu já tinha uma visão clara do tipo de personalidades e conteúdo que queria, de quem eu queria trazer para o projeto e de como deixar cada pessoa responsável por suas funções,” explicou. “Faço um mix de conteúdo que inclui entretenimento, humor, análise e competição, buscando sempre alcançar um equilíbrio perfeito entre esses elementos.”

Ele destaca a importância de entender as nuances da comunidade e de estar em constante adaptação para manter o conteúdo relevante e engajador. “Vou entendendo o que a comunidade sente falta, com o que as pessoas se relacionam mais, com o que têm mais afinidade e intimidade,” afirmou.

Baiano também enfatiza a importância de selecionar influenciadores e streamers que pudessem preencher lacunas específicas no projeto. “Tenho um bom tato para perceber essas nuances e, assim, vou encaixando novas peças, novos influenciadores, novos streamers que preencham essas lacunas. É um trabalho de sensibilidade com a própria comunidade e com os espectadores, para ir melhorando continuamente,” explicou.

Dicas para Futuros Streamers

Para quem sonha em se tornar streamer, Baiano compartilha alguns conselhos valiosos. Ele ressalta a importância de se dedicar ao conteúdo e à interação com a comunidade, mas sem esquecer do equilíbrio pessoal.

“A dica é entender que a saúde mental, esse equilíbrio mental, é fundamental para o streamer. As pessoas gostam de entrar na live para se sentir bem, é um entretenimento. Você quer levar algo bom para quem está assistindo. Então, você não pode entrar na live para baixo, triste, mesmo que esteja se sentindo assim.”

Ele também reconhece a pressão de sempre proporcionar uma experiência positiva para os espectadores. “Não deve passar isso para o espectador. É tentar se isolar da melhor forma possível para tentar passar sempre coisas boas para quem está assistindo.”

Além disso, de forma leve, Gustavo compartilhou uma curiosidade pessoal sobre um ‘toque’ que tem durante suas transmissões, mas algo que sempre o deixa em sintonia com a comunidade.

“Meu ‘toque’ de streamer, digamos assim, é ler o chat. Eu sei que é natural estar numa live e ler o chat, mas o meu é meio que… a cada dois segundos eu tenho que bater o olho no chat, sabe? Ainda bem que é um vício que me faz bem na interação com o público na live, mas eu sinto que… é óbvio que um streamer tem que fazer isso, mas eu sinto que faço muito mais do que todo mundo, né? Praticamente com a mesma frequência com que pisco os olhos, também olho para o chat. É algo que eu tenho que fazer o tempo inteiro. Às vezes, nem está acontecendo nada de muito relevante no chat, mas eu tenho que estar olhando o tempo inteiro. Então, esse é meio que o meu ‘TOC’ de streamer.”

Crossover de Sonho

Já de forma mais leve e saindo do mergulho profundo no Lolzinho, Gustavo tem uma visão interessante sobre como League of Legends poderia se expandir ainda mais através de crossovers com outras franquias populares. Quando perguntado sobre seu crossover dos sonhos, ele compartilhou uma ideia que muitos fãs de monstrinhos de bolso adorariam.

“O que eu sempre imaginei que o LoL poderia fazer é um crossover com o mundo do Pokémon. Acho que seria algo insano. Pokémon tem vários jogos que o mesmo público, a mesma geração jogou muito desde criança e tudo mais. Já vi gente tentando criar versões de algum Pokémon, algum campeão do LoL que fosse parecido com um Pokémon. É coisa de fã mesmo, e fica muito legal.”

Baiano visualiza um cenário onde personagens icônicos do Pokémon, como Pikachu e Charizard, poderiam ser integrados ao universo de LoL. “Acho que o crossover ideal seria com algo assim, colocar um Pikachu, um Charizard dentro do LoL, criar um campeão com as habilidades dos Pokémon e poder jogar com eles. Acho que isso, tanto para mim como para muita gente, seria o crossover perfeito.”

“De peça em peça eu fazia virar”

Da Bahia ao cenário global de eSports, Gustavo “Baiano” Gomes é uma prova que paixão, dedicação e visão podem transformar uma carreira. Ele, assim como outros diversos nomes, continua a inspirar pessoas e moldar a cultura do eSports no Brasil, sempre mantendo uma conexão autêntica (e irreverente) com sua comunidade. Reportagem da Rede Tv Notícias